1974.
que fazer?
gosto de novas experiências, novas batalhas, renovação.
meu pai morreu.
que será mesmo ser orfão?
quais serão as influências sobre minha pessoa e sobre minhas pessoas?
na escola, a observação da professora. o nome dela é neide, e eu a temia. hoje não, acho que riria na cara dela se dissesse qualquer coisa a respeito do meu trabalho. afinal, ela era apenas a professora de ospb - que raios é isso? - , não de desenho. e depois, o mapa é meu, sou eu quem vai guardá-lo para a posteridade, aos filhos e aos netos. nada mais justo que pintá-lo da cor que eu queira.
"o nosso presidente é uma pessoa muito boa, devemos amá-lo e respeitá-lo", dizia ela, "viva o nosso general, que em breve irá substituir outro querido general no poder."
eu meditava: o homem deve ser muito bom, mesmo, pelo menos é digno da maior confiança, pois nem sequer nos perguntaram o que achávamos dele. eu não votava ainda, naturalmente. na verdade, creio que ninguém o fazia.
ele morreu.
sou orfão. palavra esquisita, que nunca fizera sentido antes...
meu pai não queria comprar-me um novo relógio e o gravador que eu pedira, mas agora ele morreu. sei que minha mãe comprará, quando eu quiser. mas não consigo entender uma coisa: porquê não posso ter o relógio, o gravador e meu pai?
eu o amava. tenho consciência agora que o amor obcecado que eu demonstrava anteriormente era exagerado, transferência, descontentamento com as outras pessoas. na verdade, era mais fácil amar alguém a quem eu não teria mais que encarar frente-a-frente, olhos nos olhos, e dizer: eu te amo.
muito comprometedor, assim era mais fácil. no momento em que eu quisesse desamar, teria apenas que dizer a mim mesmo. mudei de idéia, manias do coração. seria apenas eu a me questionar e, sendo assim, não seria difícil arquivar o processo de... do que mesmo? degradação, talvez, no qual eu estava entrando. precocemente. e de cabeça, é preciso dizer. sem auditorias, sem balanços anuais. os exames de consciência eram por demais embaraçosos, principalmente porque o espelho do meu quarto, defronte à minha cama, é enorme.
enganando os desenganos. tal qual minha professora de ospb, que dizia ser vital o combate aos comunistas, que o governo militar nos trouxera o televisor em côres, arranha-céus, estabilidade em vários setores e a última moda norte-americana, francesa ou italiana.
new wave. eu adorava roquenrou e usava os cabelos demasiadamente longos. a professora pedia, eu batia palmas.
copa do mundo na alemanha. radinho ligado, dispensa das aulas. o brasil estava partindo para o tetra. o brasil é o melhor país do mundo!
que bom.
valéria, a garota morena que não retornou às aulas depois das férias, me olhava de soslaio e eu fazia o mesmo. na verdade, os jogos não eram tão importantes assim. não para mim. mas as pessoas diziam que era importante, eu obedecia. se o presidente é boa pessoa, tudo bem, confiarei nele. afinal, ele é um militar e está ali para combater o comunismo, propiciar-nos uma vida livre.
eu estudava todos os dias na biblioteca municipal. acordava cedo, pegava os cadernos e corria para lá. eu sabia que valéria também estaria ali. e não digam que não era uma nobre razão. ela sempre estava presente nas minhas fantasias de doze anos, assim como a tevê do presidente e da professora neide. acho que naquela época eu já não era o melhor aluno do colégio. mas também, antes não havia valérias, minhas únicas missões eram prestar atenção às aulas e guardar as moedas de um cruzeiro no cofrinho, para levar à poupança sempre que estava cheio. eu pensava comprar um carro quando completasse dezoito anos.
o brasil perdeu a copa, mas eu ganhei meu gravador.
parabéns a você!
era meu aniversário e sempre havia festa no meu aniversário. e eu estava contente, de certa forma, por não ser mais o melhor aluno do colégio e por tornar-me, de certa forma, normal. nunca me vi como uma pessoa comum. pensava diferente - pensava.
mas de certa forma estava contente. afinal, todos os meus caprichos eram atendidos.
parabéns a você!...
eu já era quase um adolescente, líder entre os colegas, exemplo de família, pregava tudo o que os mais velhos diziam porque eles eram perfeitos. breve, compraria meu carro. breve seria adulto também. parabéns a você!...
meu pai morreu.
agora sou orfão. sinto sua falta. não do que sempre me proporcionou, ou do quê ficou devendo pra minha adolescência que ía começar. sinto a sua ausência.
mas ninguém sabe disso, os mimos e os presentes devem ter me ajudado a esquecer.
talvez um dia eu perca o medo de ser pai e fazer falta a alguém.
talvez...
parabéns a você!...
parabéns a você
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